sábado, 17 de março de 2018

Animação Cultural - Vílem Flusser

        O texto de Flusser por meio de uma anedota absurda e, por vezes, irônica, propõe uma reflexão sagaz acerca da grande dependência da humanidade em relação aos objetos para executar suas atividades, por mais simples que sejam. A presença dos objetos é tão imanente nas sociedades contemporâneas que é difícil de se tomar consciência da presença dessa natureza artificial, moldada segundo as necessidades humanas, e perceber a profundidade de sua influência na sociedade e na vida psíquica das pessoas.
        Durante a maior parte da sua história os únicos artefatos que os humanos possuíam se resumiam a uma pequena coleção de ferramentas de pedra, madeira e ossos de animais que atravessou milênios sem sofrer grandes modificações. O corpo dos caçadores-coletores era muito mais exigido e, por consequência, muito mais habilidoso em relação ao dos humanos atuais para realizar tarefas as mais diversas possíveis como correr atrás de gazelas, confeccionar pontas de lança de pedra à mão, andar silenciosamente pela selva e perceber ruídos mínimos no ambiente, o que poderia ser a diferença entre a vida e a morte. Consequentemente, a forma com que esses humanos antigos (idênticos a nós biologicamente)  percebiam o mundo é imensamente diferente da percepção de um habitante de uma grande cidade no século XXI, que depende veículos que não as próprias pernas para se locomover em ambiente controlado rigidamente por semáforos, placas e convenções de transito, e precisa lidar com uma quantidade tão grande de informação em uma velocidade tão rápida, que necessita de artefatos como papel, caneta, computadores e smartphones para auxiliar o cérebro a processá-la.
        Nessa perspectiva histórica, é possível perceber como a dominação da humanidade pelos objetos já acontece há tanto tempo que um manifesto assinado por uma mesa redonda exigindo seus direitos pode não ser tão absurdo assim...

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