O ser humano é um ser que pensa por distinções. Bem e mal, vida e morte, masculino e feminino, luz e escuridão, branco e preto, frio e quente são conceitos que nos ajudam a processar a enorme complexidade das informações que registramos do mundo ao nosso redor e tomar decisões baseadas neles. A partir de sinais como sons, cheiros, imagens e sensações físicas do ambiente avaliamos, por exemplo, se há riscos à nossa integridade física, se queremos permanecer ali, quem são as pessoas em quem podemos confiar, etc.
Partindo de um princípio parecido, criamos computadores, celulares e outras programadas para processar qualquer coisa em pela comparação dos dígitos 0 e 1. É um sistema reage aos dados computados da seguinte maneira: primeiramente procura-se dividir um problema complexo em partes menores inteligíveis para então dar-lhes respostas adequadas e juntá-las novamente, chegando a uma solução final. Toda tarefa exigida a um processador, seja exibir uma imagem em uma tela ou executar um arquivo de áudio, precisa ser convertida em perguntas simples onde as únicas respostas possíveis são termos exatos: sim ou não, 0 ou 1.
É notável o desejo humano de conseguir lidar suas questões mais complexas dessa forma prática e confiável. Na sociedade contemporânea isso pode ser percebido na forma com que cientistas sociais, gestores públicos e estudiosos em geral, seguindo essa concepção racionalista/binária, precisam traduzir questões como bem-estar social e saúde mental em termos palpáveis e exatos, como o IDH - Índice de Desenvolvimento Humano, taxa de suicídios, densidade populacional e tantos outros números com os quais se pode fazer operações. No entanto é precisamente esse reducionismo e essa concepção analítica da sociedade um dos fatores que causam o sentimento de alienamento responsável por vários dos dilemas subjetivos enfrentados pelo homem moderno. O binarismo não consegue, nem conseguirá, abarcar a complexidade das questões existenciais e subjetivas humanas que precisam ser levadas em conta ao projetar espaços. Portanto, é necessário que o arquiteto tenha consciência que entre os extremos existe todo um espectro de possibilidades e sutilezas que deve ser levado em conta para que se crie uma cidade mais sensível às reais necessidades humanas.
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